Ser cardeal é mais que uma honra?
Ser nomeado para o Colégio dos Cardeais é um sinal de distinção do Papa, mas é também para benefício da Igreja. O Colégio Cardinalício é uma verdadeira instituição histórica, integrada por líderes e especialistas do mundo inteiro que permanecem ao serviço do Pontífice como seus conselheiros especiais. Eles estariam dispostos – como representa sua vestimenta escarlate – a derramar o seu sangue pelo Santo Padre.
Os cardeais têm duas tarefas principais: aconselhar o Santo Padre no governo da vasta Igreja universal e eleger o novo Pontífice.

Segundo Matthew Bunson, editor do “2012 Catholic Almanac”, um clérigo nomeado para o Colégio de Cardeais “está sendo, de fato, distinguido pelo Papa, mas é uma distinção feita para o bem da Igreja. O Colégio continua sendo uma das instituições mais singulares da história, um corpo de assessores do Vigário de Cristo formado por líderes eclesiais e especialistas do mundo inteiro”.
Ainda que os cardeais procedam do mundo inteiro, recebem um título correspondente a uma igreja em Roma, “o que significa que os cardeais, ainda que venham de mais de 60 países – encarnando a Igreja universal –, também têm uma conexão direta com a Santa Sé”, comentou Bunson.
Ser membro do Colégio “não confere um aumento da autoridade espiritual”, prosseguiu. Pelo contrário, os que recebem o barrete escarlate têm posições de autoridade na Cúria ou servem como arcebispos ou bispos em importantes igrejas locais. “Outros são nomeados em reconhecimento pelos seus longos anos de serviço e contribuições à Igreja em vários campos, incluindo a teologia, a diplomacia, a música eclesiástica e o direito canônico”, acrescentou.
“Devido à sua influência e à sua proximidade do Papa, às vezes se acredita que os cardeais possuem uma autoridade espiritual superior à dos bispos. Isso não é verdade, pois, ao contrário do ofício de bispo, o lugar do cardeal não foi estabelecido por Cristo. Foi surgindo progressivamente a necessidade de que os papas contassem com conselheiros de confiança. Muitos deles continuam sendo bispos, como receptores da plenitude das ordens sagradas, mas também se elevam ao mais exclusivo senado na história humana.”
Mas, apesar da sua procedência, todos os cardeais têm uma missão particular, observou o autor. São os assessores especiais do Papa, tanto direta como indiretamente. “Eles o assessoram diretamente quando se reúnem como grupo nos consistórios – como o de fevereiro de 2012 em Roma – e quando são consultados pelo Santo Padre. Assessoram o Papa indiretamente servindo como membros dos diferentes dicastérios da Cúria Romana, proporcionando sua liderança e experiência ao trabalho desses departamentos. Também viajam pelo mundo para missões especiais ou como representantes pessoais do Papa em diferentes eventos.”
E sua missão de eleger o Vigário de Cristo, para Bunson, “é a tarefa que recebem pela sua nomeação, e é algo que os cardeais levam a sério”.
“Finalmente – acrescentou –, espera-se que cada cardeal seja um símbolo da Igreja aonde quer que ele vá; que seja um príncipe da Igreja, segundo declara seu título tradicional; e que esteja disposto a servir e defender a Igreja 'usque ad effusionem sanguinis' [até o derramamento do seu sangue]. Os cardeais e vestem de escarlate e essa cor é um recordatório da missão de servir até o derramamento do seu sangue, algo que terão visível cada dia, até o final das suas vidas.”
Um papa escolhe livremente os homens que o servirão como cardeais e lhe darão seu conselho de especialistas. O único requisito é que devem ser sacerdotes e que sejam “especialmente relevantes”.

Um pontífice pode escolher quantos cardeais ele quiser (João Paulo II nomeou 231 durante seu longo pontificado), mas a tradição atual limita o número de cardeais com direito a voto (que tenham menos de 80 anos) a 120. Este número variou drasticamente durante os anos, segundo explicou à Aleteia o Dr. Bunson, e, de fato, houve um momento em que apenas quatro cardeais elegiam o novo papa.
“Segundo a tradição e a lei da Igreja, o Papa é completamente livre para escolher cardeais. O direito canônico vigente declara que existem apenas algumas limitações a este direito, por exemplo, que os candidatos ao colégio sejam pelo menos sacerdotes e que sejam 'especialmente relevantes pela sua doutrina, moral, piedade e prioridade na ação'”, explicou Bunson. O direito atual também estipula que os cardeais deveriam antes ser bispos, mas às vezes há exceções previstas pela lei.
Ainda que não haja limite quanto ao número de cardeais que um papa pode nomear, as reformas de Paulo VI, em 1973, determinaram o número de cardeais eleitores em 120.
o Papa Sisto V (1585-1590) decretou que deveria haver 70 cardeais, um número que permaneceu sem mudanças até 1958, quando João XXIII o elevou.
Recentemente, o número de cardeais eleitores excedeu a tradição de 120 e, depois de 18 de fevereiro de 2012, o número chegaria a 125, ainda que vários cardeais completarão 80 anos de idade nos próximos meses.

Incluindo as últimas nomeações, o Colégio de cardeais chegará a um total de 214 membros. Contudo, quando chega o momento de votar no novo pontífice, os cardeais não estão obrigados a votar em um dos cardeais. Mas, como observou Bunson, ninguém elegeu alguém fora do Colégio Cardinalício desde 1378.
Bunson esclarece: os cardeais podem votar em alguém que não esteja no conclave, ainda que isso não tenha acontecido desde 1378, quando elegeram Bartolomeo Prignano, arcebispo de Bari, que assumiu o nome de Urbano VI. Dizem que alguns dos cardeais presentes no conclave de 1958 queriam eleger Dom Giovanni Montini, arcebispo de Milão, mas acabaram elegendo o cardeal Angelo Roncalli, de Veneza (João XXIII). Montini foi eleito cinco anos depois, tempo durante o qual foi cardeal, e tomou o nome de Paulo VI.
As particularidades do Colégio de Cardeais mudaram drasticamente ao longo dos anos. O Colégio é uma instituição histórica singular, inclusive para uma Igreja de mais de dois mil anos. As próprias palavras associadas aos cardeais são únicas.

Aqui são expostas algumas notas de “Cardinals 101”, proporcionadas por Bunson:
- O papel central dos cardeais já está implícito na origem do seu nome, que vem da palavra latina “cardo”, que significa eixo ou ponto de apoio, mostrando que são conselheiros-chave, pontos de apoio para toda a Igreja.
- Existem diversos tipos de consistório, incluindo o ordinário (público) e o extraordinário. O ordinário é uma reunião regular de cardeais em Roma, com o Papa, para discutir assuntos importantes da Igreja e constituir novos membros. No consistório extraordinário, também são tratados temas importantes, mas não há nomeação de novos cardeais.
- “Escarlate” é outro termo relevante. Muitas pessoas pensam que os cardeais se vestem de vermelho, mas, na verdade, eles usam escarlate, um costume que começou em 1245, quando o Papa Inocêncio IV outorgou o famoso barrete dessa cor aos cardeais.
- Os novos cardeais recebem vários sinais do seu novo título: um capelo, um barrete e um anel. O capelo escarlate (ou “zucchetto”, nome que em italiano se dá à abóbora) e o barrete (um chapéu de seda de quatro ângulos) são colocados pelo Papa, com suas mãos na cabeça de cada cardeal. O anel é um símbolo da dignidade cardinalícia, do seu zelo pastoral e da comunhão com a Sé de Pedro.
Team Aleteia
Esta reportagem da Canção Nova Notícias explica em que consiste um consistório e suas particularidades.
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