Mundo 14.03.2013

Breve dicionário do Papa Francisco

Conheça um pouco mais sobre o pensamento do Santo Padre

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14.03.2013
© Claudia CONTERIS / AFP
O que o Papa Francisco pensa sobre o aborto, os jovens, a justiça social? Por cortesia do arcebispado de Buenos Aires e com trechos extraídos de entrevistas, apresentamos aqui alguns extratos das suas homilias mais recentes.
 
ABORTO
O aborto nunca é uma solução. Devemos escutar, acompanhar e compreender a partir do nosso lugar, a fim de salvar as duas vidas: respeitar o ser humano pequeno e indefeso, adotar medidas que possam preservar a sua vida, permitir seu nascimento e, depois, ser criativos na busca de caminhos que o levem ao seu pleno desenvolvimento.
 
EGOÍSMO
Nossas certezas podem se transformar num muro, numa cela que aprisiona o Espírito Santo. Quem isola sua consciência do caminho do povo de Deus não conhece a alegria do Espírito Santo que sustenta a esperança. É o risco que corre a consciência isolada, a consciência daqueles que, do mundo fechado de sua Tarsis (como Jonas, na Bíblia, N. do T.), se lamentam de tudo ou, sentindo sua identidade ameaçada, se lançam numa luta para, no final, ficarem ainda mais auto-ocupados e auto-referenciais. (Novembro de 2007)
 
IR AO ENCONTRO DO POVO
Em si mesmo, tudo o que pode conduzir pelos caminhos de Deus é bom. Eu sempre digo a meus sacerdotes: “Façam tudo o que devem fazer; vocês sabem quais são seus deveres ministeriais; assumam suas responsabilidades e, depois, deixem a porta aberta”. Nossos sociólogos religiosos nos dizem que a influência de uma paróquia é de seiscentos metros ao redor dela. Em Buenos Aires, há cerca de dois mil metros entre uma paróquia e outra. Eu disse então aos sacerdotes: “Se puderem, aluguem uma garagem e, se encontrarem algum leigo disposto a ajudar, que ele vá para lá! Fique um pouco com aquele povo, faça um pouco de catequese e dê até a comunhão, se lhe pedirem”. Um pároco me disse: “Mas, padre, se fizermos isso as pessoas depois não irão mais à igreja”. “Mas por quê?”, eu lhe perguntei: “Elas hoje vão à missa?”. “Não”, respondeu. E então! Sair de si mesmo é sair também do recinto do jardim dos próprios convencimentos considerados inamovíveis, se eles correm o risco de se tornar um obstáculo, se fecham o horizonte que é de Deus. (Novembro de 2007)
 
DEFESA DA VIDA
Os que se escandalizavam quando Jesus ia comer com os pecadores, com os publicanos, a estes Jesus dizia: "Os publicanos e as prostitutas os precederão no Reino dos céus"... Jesus não os defende. São os que clericalizaram – usando uma palavra para que me entendam – a Igreja do Senhor. Eles a enchem de preceitos, e digo isso com dor e, se parece uma denúncia ou uma ofensa, perdoem-me, mas na nossa região eclesiástica há padres que não batizam os filhos de mães solteiras porque estes não foram concebidos na santidade do matrimônio. Estes são os hipócritas de hoje. Os que clericalizaram a Igreja. Os que afastam o povo de Deus da salvação. E essa pobre moça, que poderia ter devolvido seu filho ao remetente, teve a coragem de trazê-lo ao mundo, vai peregrinando de paróquia em paróquia para que o batizem (2 de setembro de 2012).
 
EDUCAÇÃO
Quando vi o texto antes da Missa, fiquei pensando na maneira de viver daquelas primeiras comunidades cristãs e a Missa de hoje... E me perguntei se o trabalho educativo não teria que ir por este caminho de alcançar a harmonia: a harmonia em todos os meninos e meninas que nos foram confiados, a harmonia interior, a da sua personalidade. É trabalhando artesanalmente, imitando Deus, "moldando" a vida dessas crianças, como poderemos chegar à harmonia. E resgatá-las das dissonâncias que são sempre escuras. A harmonia, ao contrário, é luminosa, clara, é a luz. A harmonia de um coração que cresce e que nós acompanhamos neste caminho educativo é o que precisamos conseguir. (18 de abril de 2012)

PAPEL DO ESPÍRITO SANTO
Os teólogos antigos diziam: a alma é uma espécie de barco a vela, o Espírito Santo é o vento que sopra a vela, para fazê-la seguir em frente, os impulsos e empurrões do vento são os dons do Espírito. Sem Seu impulso, sem Sua graça, nós não vamos em frente. O Espírito Santo nos faz entrar no mistério de Deus e nos salva do perigo de uma Igreja gnóstica e de uma Igreja auto-referencial, levando-nos à missão. (Novembro de 2007)
 
TRÁFICO DE PESSOAS
Hoje, nesta cidade, queremos que se ouça o grito, a pergunta de Deus: "Onde está o seu irmão?" Que esta pergunta de Deus percorra todos os bairros desta cidade, que percorra o nosso coração e sobretudo que entre também no coração dos "Cains" modernos. Talvez alguns perguntem: que irmão? Onde está o seu irmão escravo?? Aquele que você está matando todos os dias na oficina clandestina, na rede de prostituição, nos lugares das crianças que você usa para mendigar, para "campanha" de distribuição de drogas, para roubos e para prostituí-los! Onde está o seu irmão, aquele que tem de trabalhar quase escondido como catador de lixo porque não foi contratado? Onde está o seu irmão? E, frente a esta pergunta, podemos fazer, como fez o sacerdote que passou ao lado do ferido, fazer de conta que estamos distraídos; ou como fez o levita: olhar para o outro lado, porque a pergunta não parece ser para mim. A pergunta é para todos! Porque, nesta cidade, está instalado o sistema de tráfico de pessoas, esse crime mafioso e aberrante, como tão acertadamente definiu há poucos dias um funcionário: crime mafioso e aberrante! (25 de setembro de 2012)
 
QUESTÃO SOCIAL
Pouco a pouco, nós nos acostumamos a ouvir e ver, por meio da mídia, a crônica obscura da sociedade contemporânea, apresentada quase com uma alegria perversa; e também nos acostumamos a tocá-la e a senti-la ao nosso redor e em nossa própria pele. O drama está nas ruas, no bairro, na nossa casa e – por que não? – em nosso coração. Convivemos com a violência que mata, que destrói famílias, aviva guerras e conflitos em tantos países do mundo. Convivemos com a inveja, ódio, calúnia, mundanidade no nosso coração. O sofrimento de inocentes e pacíficos não deixa de nos abofetear; o desprezo dos direitos das pessoas e dos povos mais frágeis não estão tão distantes de nós; o império do dinheiro, com seus efeitos demoníacos, como a corrupção, o tráfico de pessoas – inclusive crianças – junto à miséria material e moral são a moeda do dia a dia. A destruição do trabalho digno, as emigrações dolorosas e a falta de futuro também se unem a esta sinfonia. Nossos erros e pecados como Igreja tampouco ficam fora deste grande panorama. Os egoísmos mais íntimos justificados – e não por isso menores –, a falta de valores éticos dentro de uma sociedade que faz metástase nas famílias, na convivência dos bairros, povos e cidades, nos falam da nossa limitação, da nossa fraqueza e da nossa incapacidade para poder transformar esta lista inumerável de realidades destrutivas.
 
CONTAR COM A TERNURA DE DEUS
Penso naquelas comunidades cristãs do Japão que ficaram sem sacerdotes por mais de duzentos anos. Quando os missionários voltaram, encontraram todos batizados, todos validamente casados para a Igreja, e todos os seus falecidos tinham tido um enterro católico. A fé permaneceu intacta, graças aos dons da graça que alegraram a vida desses leigos que só haviam recebido o batismo e vivido sua missão apostólica em virtude unicamente do batismo. Não devemos ter medo de depender apenas da ternura de Deus... A senhora conhece o episódio bíblico do profeta Jonas?
Jonas tinha tudo muito claro. Tinha ideias claras sobre Deus, ideias muito claras sobre o bem e o mal. Sobre o que Deus faz e sobre o que quer, sobre quais eram as pessoas fiéis à Aliança e quais estavam fora da Aliança. Tinha a receita para ser um bom profeta. Deus irrompe em sua vida como um rio violento. Envia-o a Nínive. Nínive é o símbolo de todos os separados, os perdidos, de todas as periferias da humanidade. De todos aqueles que estão fora, longe. Jonas viu que a tarefa que lhe era confiada era apenas dizer a todos aqueles homens que os braços de Deus ainda estavam abertos, que a paciência de Deus estava ali e esperava, para curá-los com Seu perdão e alimentá-los com Sua ternura. Deus o havia enviado apenas para isso. Ele o mandava a Nínive, mas ele, em vez disso, foge para o lado oposto, para Tarsis.
Aquilo de que ele fugia não era tanto Nínive, mas o amor sem medidas de Deus por aqueles homens. Era isso que não cabia em seus planos. Deus tinha vindo uma vez... e “no resto penso eu”: era o que Jonas dizia a si mesmo. Queria fazer as coisas à sua maneira, queria guiar tudo sozinho. Sua teimosia o fechava em suas avaliações estruturadas, em seus métodos preestabelecidos, em suas opiniões corretas. Tinha cercado sua alma com o arame farpado daquelas certezas que, em vez de dar liberdade com Deus e abrir horizontes de maior serviço aos outros, tinham acabado por endurecer seu coração. Como a consciência isolada endurece o coração! Jonas não sabia mais como Deus conduzia seu povo com coração de Pai. (Novembro de 2007)
 
EVANGELIZAÇÃO
Não é suficiente que a nossa verdade seja ortodoxa e nossa ação pastoral, eficaz. Sem a alegria da beleza, a verdade se torna fria e até impiedosa e soberba, como vemos que acontece no discurso de muitos fundamentalistas amargurados. Parece que mastigam cinzas ao invés de saborear a doçura gloriosa da verdade de Cristo, que ilumina, com luz mansa, toda realidade, assumindo-a assim como ela é a cada dia. Sem a alegria da beleza, o trabalho pelo bem se torna em eficientismo sombrio, como vemos que acontece na ação de muitos ativistas. Parece que andam revestindo de luto estatístico a realidade, ao invés de ungi-la com o óleo interior da alegria que transforma os corações, um a um, partindo de dentro. (22 de abril de 2011)
 
DEFESA DO CASAMENTO
Está em jogo a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos. Está em jogo a vida de tantas crianças que serão discriminadas de antemão, sendo privadas do amadurecimento humano que Deus quis que acontecesse com um pai e uma mãe. Está em jogo uma rejeição frontal da lei de Deus, gravada nos nossos corações.. Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva do plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é apenas o instrumento), mas de uma artimanha do pai da mentira, que pretende confundir e enganar os filhos de Deus. (8 de julho de 2010).
 
JUSTIÇA SOCIAL
A justiça alegra o coração: quando ela existe para todos, quando a pessoa percebe que há igualdade, equidade, quando cada um tem o seu. Quando vemos que há para todos, sentimos uma felicidade especial no coração. Aqui cresce o coração de cada um e se funde com o dos outros, fazendo-nos sentir a Pátria. A Pátria floresce quando vemos "no trono a nobre igualdade", como bem diz o nosso hino nacional. A injustiça, no entanto, escurece tudo. Que triste quando a pessoa vê que poderia haver perfeitamente para todos, mas no final não dá certo. (...) Dizer "todas as crianças" é dizer todo o futuro. Dizer "todos os aposentados" é dizer toda a nossa história. Nosso povo sabe que o todo é maior que as partes e por isso pedimos "pão e trabalho para todos". Que desprezível, ao contrário, aquele que guarda seu tesouro somente para o seu hoje, aquele que tem um coração pequeno, cheio de egoísmo, e só pensa em pegar essa parte que não levará consigo quando morrer. Porque ninguém leva nada. Eu nunca vi um caminhão de mudança atrás de um cortejo fúnebre. Minha avó nos dizia: "A mortalha não tem bolsos". (Homilia de 7 de agosto de 2012)
 
MUNDANIDADE ESPIRITUAL
É aquilo que De Lubac chama “mundanidade espiritual”. É o maior perigo para a Igreja, para nós, que estamos na Igreja. “É pior – diz De Lubac –, mais desastrosa que a lepra infame que desfigurou a Esposa amada no tempo dos papas libertinos”. A mundanidade espiritual é pormos a nós mesmos no centro. É o que Jesus vê acontecer entre os fariseus: “... Vós que vos gloriais. Que gloriais a vós mesmos, uns aos outros”. (Novembro de 2007)
 

A experiência da nossa fé nos situa na experiência do Espírito, marcada pela capacidade de colocar-se em caminho. Não há nada mais oposto ao Espírito que instalar-se, fechar-se. Quando não se transita pela porta da fé, a porta se fecha, a Igreja se fecha, o coração se retrai e o medo e o mau espírito "avinagram" a Boa Notícia. Quando o crisma da fé se resseca e se torna rançoso, o evangelizador já não contagia, mas perde sua fragrância, convertendo-se muitas vezes em causa de escândalo e de afastamento para muitos. Quem crê é receptor daquela bem-aventurança que atravessa todo o Evangelho e que ressoa ao longo da história, seja na boca de Isabel – "Bem-aventurada aquela que acreditou" –, seja dirigida pelo próprio Jesus a Tomé – "Felizes os que creram sem ter visto". (9 de junho de 2012).
 
FIDELIDADE A DEUS
Ficar, permanecer fiel implica uma saída. Se a pessoa permanece no Senhor, sai de si mesma. Paradoxalmente, pelo fato de permanecer, se a pessoa é fiel, ela muda. Não se permanece fiel à letra, como os tradicionalistas ou os fundamentalistas. A fidelidade é sempre uma mudança, um florescimento, um crescimento. O Senhor realiza uma mudança naquele que é fiel a Ele. É a doutrina católica. São Vicente de Lerins faz uma comparação entre o desenvolvimento biológico do homem, entre o homem que cresce, e a Tradição, que, ao transmitir de uma época para outra o depositum fidei, cresce e se consolida com o passar do tempo: “Ut annis scilicet consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate”. (Novembro de 2007)
 
PODER POLÍTICO
Esta "loucura" do mandamento do amor que o Senhor nos propõe e que nos defende em nosso ser afasta também as outras "loucuras" tão cotidianas que mentem, prejudicam e acabam impedindo a realização do projeto de Nação: a do relativismo e a do poder como ideologia única. O relativismo que, com o pretexto do respeito pelas diferenças, homogeniza na transgressão e na demagogia; permite tudo para não assumir a contrariedade que exige a coragem madura de sustentar valores e princípios. O relativismo é, curiosamente, absolutista e totalitário, não permite diferir do próprio relativismo, em nada difere do "cale-se" ou do "não se meta". O poder como ideologia única é outra mentira. Se os preconceitos ideológicos deformam o olhar sobre o próximo e a sociedade segundo as próprias seguranças e medos, o poder feito ideologia única acentua o foco persecutório e preconceituoso de que "todas as posturas são esquemas de poder" e "todos buscam dominar sobre os outros". Dessa maneira, corrói-se a confiança social, que, como comentei, é raiz e fruto do amor. (25 de maio de 2012)
 
CORAGEM APOSTÓLICA
Para mim, a coragem apostólica é semear. Semear a Palavra. Dá-la àquele e àquela para os quais ela é oferecida. Dar a eles a beleza do Evangelho, a surpresa do encontro com Jesus... e deixar que o Espírito Santo faça o resto. É o Senhor, diz o Evangelho, que faz germinar e frutificar a semente. (Novembro de 2007)
 
CRISE
Os sintomas do desencanto são variados, mas talvez o mais claro seja o dos "encantamentos na medida": o encantamento da tecnologia, que promete sempre coisas melhores, o encantamento de uma economia que oferece possibilidades quase ilimitadas em todos os aspectos da vida aos que conseguem ser incluídos no sistema, o encantamento das propostas religiosas menores, à medida de cada necessidade. O desencanto tem dimensão escatológica. Ataca indiretamente, colocando entre parênteses toda atitude definitiva e, no seu lugar, propõe esses pequenos encantamentos que funcionam como "ilhas" ou "tréguas" frente à falta de esperança diante do andamento do mundo em geral. Daqui que a única atitude humana para romper encantamentos e desencantos é situar-nos diante das coisas últimas e perguntar-nos: quanto à esperança, vamos "de bem a melhor", subindo, ou de mal a pior, descendo? E então surge a dúvida: podemos responder? Temos, como cristãos, a palavra e os gestos para marcar o rumo da esperança para o nosso mundo? Ou, como os discípulos de Emaús e os que ficaram no cenáculo, somos os primeiros a precisar de ajuda? (8 de maio de 2011)
 
HUMILDADE
A passagem evangélica nos fala da humildade. A humildade revela, à pequenez humana autoconsciente, os potenciais que tem em si mesma. De fato, quanto mais conscientes dos nossos dons e limites, as duas coisas juntas, seremos mais livres da cegueira da soberba. E assim como Jesus louva o Pai por esta revelação aos pequenos, deveríamos também louvar o Pai por ter feito sair o sol para aqueles que confiaram no dom da liberdade, essa liberdade que fez brotar no coração daquele povo que apostou na grandeza sem perder a consciência da sua pequenez. (25 de maio de 2011)
 
PESSOAS SIMPLES
A sabedoria de milhares de "mulheres e de homens que fazem fila para viajar e trabalhar honradamente, para levar o pão de cada dia à mesa, para economizar e ir, pouco a pouco, comprando tijolos e reformando a casa... Milhares e milhares de crianças, com seus macacões, desfilam pelos corredores e ruas, indo e voltando, de casa para a escola, da escola para casa. Enquanto isso, muitos avós, que guardaram a sabedoria popular, se reúnem para compartilhar e contar histórias". Passarão as crises e manipulações; o desprezo dos poderosos os isolarão com miséria, lhes oferecerão o suicídio das drogas, o descontrole e a violência; os tentarão com o ódio do ressentimento vingativo. Mas eles, os humildes, seja qual for sua posição ou condição social, apelarão à sabedoria daquele que se sente filho de um Deus que não é distante, que os acompanha com a Cruz e os incentiva com a Ressurreição nestes milagres, as conquistas cotidianas, que nos convidam a desfrutar das alegrias de compartilhar e comemorar. (25 de maio de 2011)
 
NOVA EVANGELIZAÇÃO
Deus mora na cidade e a Igreja mora na cidade. A missão não se opõe a ter de aprender da cidade – das suas culturas e mudanças –, ao mesmo tempo em que saímos para pregar-lhe o Evangelho. E isso é resultado do próprio Evangelho, que interage com o terreno em que cai como semente. Não só a cidade moderna é um desafio, mas sempre o foi o será toda cidade, toda cultura, toda mentalidade e todo coração humano. A contemplação da Encarnação, que Santo Inácio apresenta nos Exercícios Espirituais, é um bom exemplo do olhar que aqui se propõe. Um olhar que não fica atolado nesse dualismo que vai e volta constantemente dos diagnósticos à planificação, mas que se envolve dramaticamente na realidade da cidade e se compromete com ela na ação. O Evangelho é um "kerygma" aceito e que impulsiona a transmiti-lo. As mediações vão sendo elaboradas enquanto vivemos e convivemos. (25 de agosto de 2011)
 
MARIA
Porque Deus tinha uma carência para poder penetrar humanamente na nossa história: precisava de uma mãe, e a pediu a nós. Esta é a Mãe a quem olhamos hoje, a filha do nosso povo, a servidora, a pura, a só de Deus; a discreta que dá espaço para que o filho realize sua missão, a que sempre está possibilitando esta realidade, mas não como dona nem inclusive como protagonista, e sim como servidora; a estrela que sabe apagar para que o Sol se manifeste. Assim é a mediação de Maria à qual nos referimos hoje. Mediação de mulher que não nega sua maternidade, mas a assume desde o começo; maternidade com parto duplo, um em Belém e outro no Calvário; maternidade que contém e acompanha os amigos do seu Filho, que é a única referência até o final dos dias. E assim Maria continua entre nós, "situada no próprio centro dessa 'inimizade' do protoevangelho, daquela luta que acompanha a história da humanidade" (cf. Redemptoris Mater, 11). Mãe que possibilita espaços para que a Graça chegue. Essa Graça que revoluciona e transforma nossa existência e nossa identidade: o Espírito Santo que nos torna filhos adotivos, nos liberta de toda escravidão e, em uma possessão real e mística, nos entrega o dom da liberdade e clama, de dentro de nós, a invocação do nosso pertencimento: Pai! (7 de novembro de 2011)

O que o Papa Francisco pensa sobre o aborto, os jovens, a justiça social? Por cortesia do arcebispado de Buenos Aires e com trechos extraídos de entrevistas, apresentamos aqui alguns extratos das suas homilias mais recentes.
 
ABORTO
O aborto nunca é uma solução. Devemos escutar, acompanhar e compreender a partir do nosso lugar, a fim de salvar as duas vidas: respeitar o ser humano pequeno e indefeso, adotar medidas que possam preservar a sua vida, permitir seu nascimento e, depois, ser criativos na busca de caminhos que o levem ao seu pleno desenvolvimento.
 
EGOÍSMO
Nossas certezas podem se transformar num muro, numa cela que aprisiona o Espírito Santo. Quem isola sua consciência do caminho do povo de Deus não conhece a alegria do Espírito Santo que sustenta a esperança. É o risco que corre a consciência isolada, a consciência daqueles que, do mundo fechado de sua Tarsis (como Jonas, na Bíblia, N. do T.), se lamentam de tudo ou, sentindo sua identidade ameaçada, se lançam numa luta para, no final, ficarem ainda mais auto-ocupados e auto-referenciais. (Novembro de 2007)
 
IR AO ENCONTRO DO POVO
Em si mesmo, tudo o que pode conduzir pelos caminhos de Deus é bom. Eu sempre digo a meus sacerdotes: “Façam tudo o que devem fazer; vocês sabem quais são seus deveres ministeriais; assumam suas responsabilidades e, depois, deixem a porta aberta”. Nossos sociólogos religiosos nos dizem que a influência de uma paróquia é de seiscentos metros ao redor dela. Em Buenos Aires, há cerca de dois mil metros entre uma paróquia e outra. Eu disse então aos sacerdotes: “Se puderem, aluguem uma garagem e, se encontrarem algum leigo disposto a ajudar, que ele vá para lá! Fique um pouco com aquele povo, faça um pouco de catequese e dê até a comunhão, se lhe pedirem”. Um pároco me disse: “Mas, padre, se fizermos isso as pessoas depois não irão mais à igreja”. “Mas por quê?”, eu lhe perguntei: “Elas hoje vão à missa?”. “Não”, respondeu. E então! Sair de si mesmo é sair também do recinto do jardim dos próprios convencimentos considerados inamovíveis, se eles correm o risco de se tornar um obstáculo, se fecham o horizonte que é de Deus. (Novembro de 2007)
 
DEFESA DA VIDA
Os que se escandalizavam quando Jesus ia comer com os pecadores, com os publicanos, a estes Jesus dizia: "Os publicanos e as prostitutas os precederão no Reino dos céus"... Jesus não os defende. São os que clericalizaram – usando uma palavra para que me entendam – a Igreja do Senhor. Eles a enchem de preceitos, e digo isso com dor e, se parece uma denúncia ou uma ofensa, perdoem-me, mas na nossa região eclesiástica há padres que não batizam os filhos de mães solteiras porque estes não foram concebidos na santidade do matrimônio. Estes são os hipócritas de hoje. Os que clericalizaram a Igreja. Os que afastam o povo de Deus da salvação. E essa pobre moça, que poderia ter devolvido seu filho ao remetente, teve a coragem de trazê-lo ao mundo, vai peregrinando de paróquia em paróquia para que o batizem (2 de setembro de 2012).
 
EDUCAÇÃO
Quando vi o texto antes da Missa, fiquei pensando na maneira de viver daquelas primeiras comunidades cristãs e a Missa de hoje... E me perguntei se o trabalho educativo não teria que ir por este caminho de alcançar a harmonia: a harmonia em todos os meninos e meninas que nos foram confiados, a harmonia interior, a da sua personalidade. É trabalhando artesanalmente, imitando Deus, "moldando" a vida dessas crianças, como poderemos chegar à harmonia. E resgatá-las das dissonâncias que são sempre escuras. A harmonia, ao contrário, é luminosa, clara, é a luz. A harmonia de um coração que cresce e que nós acompanhamos neste caminho educativo é o que precisamos conseguir. (18 de abril de 2012)

PAPEL DO ESPÍRITO SANTO
Os teólogos antigos diziam: a alma é uma espécie de barco a vela, o Espírito Santo é o vento que sopra a vela, para fazê-la seguir em frente, os impulsos e empurrões do vento são os dons do Espírito. Sem Seu impulso, sem Sua graça, nós não vamos em frente. O Espírito Santo nos faz entrar no mistério de Deus e nos salva do perigo de uma Igreja gnóstica e de uma Igreja auto-referencial, levando-nos à missão. (Novembro de 2007)
 
TRÁFICO DE PESSOAS
Hoje, nesta cidade, queremos que se ouça o grito, a pergunta de Deus: "Onde está o seu irmão?" Que esta pergunta de Deus percorra todos os bairros desta cidade, que percorra o nosso coração e sobretudo que entre também no coração dos "Cains" modernos. Talvez alguns perguntem: que irmão? Onde está o seu irmão escravo?? Aquele que você está matando todos os dias na oficina clandestina, na rede de prostituição, nos lugares das crianças que você usa para mendigar, para "campanha" de distribuição de drogas, para roubos e para prostituí-los! Onde está o seu irmão, aquele que tem de trabalhar quase escondido como catador de lixo porque não foi contratado? Onde está o seu irmão? E, frente a esta pergunta, podemos fazer, como fez o sacerdote que passou ao lado do ferido, fazer de conta que estamos distraídos; ou como fez o levita: olhar para o outro lado, porque a pergunta não parece ser para mim. A pergunta é para todos! Porque, nesta cidade, está instalado o sistema de tráfico de pessoas, esse crime mafioso e aberrante, como tão acertadamente definiu há poucos dias um funcionário: crime mafioso e aberrante! (25 de setembro de 2012)
 
QUESTÃO SOCIAL
Pouco a pouco, nós nos acostumamos a ouvir e ver, por meio da mídia, a crônica obscura da sociedade contemporânea, apresentada quase com uma alegria perversa; e também nos acostumamos a tocá-la e a senti-la ao nosso redor e em nossa própria pele. O drama está nas ruas, no bairro, na nossa casa e – por que não? – em nosso coração. Convivemos com a violência que mata, que destrói famílias, aviva guerras e conflitos em tantos países do mundo. Convivemos com a inveja, ódio, calúnia, mundanidade no nosso coração. O sofrimento de inocentes e pacíficos não deixa de nos abofetear; o desprezo dos direitos das pessoas e dos povos mais frágeis não estão tão distantes de nós; o império do dinheiro, com seus efeitos demoníacos, como a corrupção, o tráfico de pessoas – inclusive crianças – junto à miséria material e moral são a moeda do dia a dia. A destruição do trabalho digno, as emigrações dolorosas e a falta de futuro também se unem a esta sinfonia. Nossos erros e pecados como Igreja tampouco ficam fora deste grande panorama. Os egoísmos mais íntimos justificados – e não por isso menores –, a falta de valores éticos dentro de uma sociedade que faz metástase nas famílias, na convivência dos bairros, povos e cidades, nos falam da nossa limitação, da nossa fraqueza e da nossa incapacidade para poder transformar esta lista inumerável de realidades destrutivas.
 
CONTAR COM A TERNURA DE DEUS
Penso naquelas comunidades cristãs do Japão que ficaram sem sacerdotes por mais de duzentos anos. Quando os missionários voltaram, encontraram todos batizados, todos validamente casados para a Igreja, e todos os seus falecidos tinham tido um enterro católico. A fé permaneceu intacta, graças aos dons da graça que alegraram a vida desses leigos que só haviam recebido o batismo e vivido sua missão apostólica em virtude unicamente do batismo. Não devemos ter medo de depender apenas da ternura de Deus... A senhora conhece o episódio bíblico do profeta Jonas?
Jonas tinha tudo muito claro. Tinha ideias claras sobre Deus, ideias muito claras sobre o bem e o mal. Sobre o que Deus faz e sobre o que quer, sobre quais eram as pessoas fiéis à Aliança e quais estavam fora da Aliança. Tinha a receita para ser um bom profeta. Deus irrompe em sua vida como um rio violento. Envia-o a Nínive. Nínive é o símbolo de todos os separados, os perdidos, de todas as periferias da humanidade. De todos aqueles que estão fora, longe. Jonas viu que a tarefa que lhe era confiada era apenas dizer a todos aqueles homens que os braços de Deus ainda estavam abertos, que a paciência de Deus estava ali e esperava, para curá-los com Seu perdão e alimentá-los com Sua ternura. Deus o havia enviado apenas para isso. Ele o mandava a Nínive, mas ele, em vez disso, foge para o lado oposto, para Tarsis.
Aquilo de que ele fugia não era tanto Nínive, mas o amor sem medidas de Deus por aqueles homens. Era isso que não cabia em seus planos. Deus tinha vindo uma vez... e “no resto penso eu”: era o que Jonas dizia a si mesmo. Queria fazer as coisas à sua maneira, queria guiar tudo sozinho. Sua teimosia o fechava em suas avaliações estruturadas, em seus métodos preestabelecidos, em suas opiniões corretas. Tinha cercado sua alma com o arame farpado daquelas certezas que, em vez de dar liberdade com Deus e abrir horizontes de maior serviço aos outros, tinham acabado por endurecer seu coração. Como a consciência isolada endurece o coração! Jonas não sabia mais como Deus conduzia seu povo com coração de Pai. (Novembro de 2007)
 
EVANGELIZAÇÃO
Não é suficiente que a nossa verdade seja ortodoxa e nossa ação pastoral, eficaz. Sem a alegria da beleza, a verdade se torna fria e até impiedosa e soberba, como vemos que acontece no discurso de muitos fundamentalistas amargurados. Parece que mastigam cinzas ao invés de saborear a doçura gloriosa da verdade de Cristo, que ilumina, com luz mansa, toda realidade, assumindo-a assim como ela é a cada dia. Sem a alegria da beleza, o trabalho pelo bem se torna em eficientismo sombrio, como vemos que acontece na ação de muitos ativistas. Parece que andam revestindo de luto estatístico a realidade, ao invés de ungi-la com o óleo interior da alegria que transforma os corações, um a um, partindo de dentro. (22 de abril de 2011)
 
DEFESA DO CASAMENTO
Está em jogo a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos. Está em jogo a vida de tantas crianças que serão discriminadas de antemão, sendo privadas do amadurecimento humano que Deus quis que acontecesse com um pai e uma mãe. Está em jogo uma rejeição frontal da lei de Deus, gravada nos nossos corações.. Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva do plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é apenas o instrumento), mas de uma artimanha do pai da mentira, que pretende confundir e enganar os filhos de Deus. (8 de julho de 2010).
 
JUSTIÇA SOCIAL
A justiça alegra o coração: quando ela existe para todos, quando a pessoa percebe que há igualdade, equidade, quando cada um tem o seu. Quando vemos que há para todos, sentimos uma felicidade especial no coração. Aqui cresce o coração de cada um e se funde com o dos outros, fazendo-nos sentir a Pátria. A Pátria floresce quando vemos "no trono a nobre igualdade", como bem diz o nosso hino nacional. A injustiça, no entanto, escurece tudo. Que triste quando a pessoa vê que poderia haver perfeitamente para todos, mas no final não dá certo. (...) Dizer "todas as crianças" é dizer todo o futuro. Dizer "todos os aposentados" é dizer toda a nossa história. Nosso povo sabe que o todo é maior que as partes e por isso pedimos "pão e trabalho para todos". Que desprezível, ao contrário, aquele que guarda seu tesouro somente para o seu hoje, aquele que tem um coração pequeno, cheio de egoísmo, e só pensa em pegar essa parte que não levará consigo quando morrer. Porque ninguém leva nada. Eu nunca vi um caminhão de mudança atrás de um cortejo fúnebre. Minha avó nos dizia: "A mortalha não tem bolsos". (Homilia de 7 de agosto de 2012)
 
MUNDANIDADE ESPIRITUAL
É aquilo que De Lubac chama “mundanidade espiritual”. É o maior perigo para a Igreja, para nós, que estamos na Igreja. “É pior – diz De Lubac –, mais desastrosa que a lepra infame que desfigurou a Esposa amada no tempo dos papas libertinos”. A mundanidade espiritual é pormos a nós mesmos no centro. É o que Jesus vê acontecer entre os fariseus: “... Vós que vos gloriais. Que gloriais a vós mesmos, uns aos outros”. (Novembro de 2007)
 

A experiência da nossa fé nos situa na experiência do Espírito, marcada pela capacidade de colocar-se em caminho. Não há nada mais oposto ao Espírito que instalar-se, fechar-se. Quando não se transita pela porta da fé, a porta se fecha, a Igreja se fecha, o coração se retrai e o medo e o mau espírito "avinagram" a Boa Notícia. Quando o crisma da fé se resseca e se torna rançoso, o evangelizador já não contagia, mas perde sua fragrância, convertendo-se muitas vezes em causa de escândalo e de afastamento para muitos. Quem crê é receptor daquela bem-aventurança que atravessa todo o Evangelho e que ressoa ao longo da história, seja na boca de Isabel – "Bem-aventurada aquela que acreditou" –, seja dirigida pelo próprio Jesus a Tomé – "Felizes os que creram sem ter visto". (9 de junho de 2012).
 
FIDELIDADE A DEUS
Ficar, permanecer fiel implica uma saída. Se a pessoa permanece no Senhor, sai de si mesma. Paradoxalmente, pelo fato de permanecer, se a pessoa é fiel, ela muda. Não se permanece fiel à letra, como os tradicionalistas ou os fundamentalistas. A fidelidade é sempre uma mudança, um florescimento, um crescimento. O Senhor realiza uma mudança naquele que é fiel a Ele. É a doutrina católica. São Vicente de Lerins faz uma comparação entre o desenvolvimento biológico do homem, entre o homem que cresce, e a Tradição, que, ao transmitir de uma época para outra o depositum fidei, cresce e se consolida com o passar do tempo: “Ut annis scilicet consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate”. (Novembro de 2007)
 
PODER POLÍTICO
Esta "loucura" do mandamento do amor que o Senhor nos propõe e que nos defende em nosso ser afasta também as outras "loucuras" tão cotidianas que mentem, prejudicam e acabam impedindo a realização do projeto de Nação: a do relativismo e a do poder como ideologia única. O relativismo que, com o pretexto do respeito pelas diferenças, homogeniza na transgressão e na demagogia; permite tudo para não assumir a contrariedade que exige a coragem madura de sustentar valores e princípios. O relativismo é, curiosamente, absolutista e totalitário, não permite diferir do próprio relativismo, em nada difere do "cale-se" ou do "não se meta". O poder como ideologia única é outra mentira. Se os preconceitos ideológicos deformam o olhar sobre o próximo e a sociedade segundo as próprias seguranças e medos, o poder feito ideologia única acentua o foco persecutório e preconceituoso de que "todas as posturas são esquemas de poder" e "todos buscam dominar sobre os outros". Dessa maneira, corrói-se a confiança social, que, como comentei, é raiz e fruto do amor. (25 de maio de 2012)
 
CORAGEM APOSTÓLICA
Para mim, a coragem apostólica é semear. Semear a Palavra. Dá-la àquele e àquela para os quais ela é oferecida. Dar a eles a beleza do Evangelho, a surpresa do encontro com Jesus... e deixar que o Espírito Santo faça o resto. É o Senhor, diz o Evangelho, que faz germinar e frutificar a semente. (Novembro de 2007)
 
CRISE
Os sintomas do desencanto são variados, mas talvez o mais claro seja o dos "encantamentos na medida": o encantamento da tecnologia, que promete sempre coisas melhores, o encantamento de uma economia que oferece possibilidades quase ilimitadas em todos os aspectos da vida aos que conseguem ser incluídos no sistema, o encantamento das propostas religiosas menores, à medida de cada necessidade. O desencanto tem dimensão escatológica. Ataca indiretamente, colocando entre parênteses toda atitude definitiva e, no seu lugar, propõe esses pequenos encantamentos que funcionam como "ilhas" ou "tréguas" frente à falta de esperança diante do andamento do mundo em geral. Daqui que a única atitude humana para romper encantamentos e desencantos é situar-nos diante das coisas últimas e perguntar-nos: quanto à esperança, vamos "de bem a melhor", subindo, ou de mal a pior, descendo? E então surge a dúvida: podemos responder? Temos, como cristãos, a palavra e os gestos para marcar o rumo da esperança para o nosso mundo? Ou, como os discípulos de Emaús e os que ficaram no cenáculo, somos os primeiros a precisar de ajuda? (8 de maio de 2011)
 
HUMILDADE
A passagem evangélica nos fala da humildade. A humildade revela, à pequenez humana autoconsciente, os potenciais que tem em si mesma. De fato, quanto mais conscientes dos nossos dons e limites, as duas coisas juntas, seremos mais livres da cegueira da soberba. E assim como Jesus louva o Pai por esta revelação aos pequenos, deveríamos também louvar o Pai por ter feito sair o sol para aqueles que confiaram no dom da liberdade, essa liberdade que fez brotar no coração daquele povo que apostou na grandeza sem perder a consciência da sua pequenez. (25 de maio de 2011)
 
PESSOAS SIMPLES
A sabedoria de milhares de "mulheres e de homens que fazem fila para viajar e trabalhar honradamente, para levar o pão de cada dia à mesa, para economizar e ir, pouco a pouco, comprando tijolos e reformando a casa... Milhares e milhares de crianças, com seus macacões, desfilam pelos corredores e ruas, indo e voltando, de casa para a escola, da escola para casa. Enquanto isso, muitos avós, que guardaram a sabedoria popular, se reúnem para compartilhar e contar histórias". Passarão as crises e manipulações; o desprezo dos poderosos os isolarão com miséria, lhes oferecerão o suicídio das drogas, o descontrole e a violência; os tentarão com o ódio do ressentimento vingativo. Mas eles, os humildes, seja qual for sua posição ou condição social, apelarão à sabedoria daquele que se sente filho de um Deus que não é distante, que os acompanha com a Cruz e os incentiva com a Ressurreição nestes milagres, as conquistas cotidianas, que nos convidam a desfrutar das alegrias de compartilhar e comemorar. (25 de maio de 2011)
 
NOVA EVANGELIZAÇÃO
Deus mora na cidade e a Igreja mora na cidade. A missão não se opõe a ter de aprender da cidade – das suas culturas e mudanças –, ao mesmo tempo em que saímos para pregar-lhe o Evangelho. E isso é resultado do próprio Evangelho, que interage com o terreno em que cai como semente. Não só a cidade moderna é um desafio, mas sempre o foi o será toda cidade, toda cultura, toda mentalidade e todo coração humano. A contemplação da Encarnação, que Santo Inácio apresenta nos Exercícios Espirituais, é um bom exemplo do olhar que aqui se propõe. Um olhar que não fica atolado nesse dualismo que vai e volta constantemente dos diagnósticos à planificação, mas que se envolve dramaticamente na realidade da cidade e se compromete com ela na ação. O Evangelho é um "kerygma" aceito e que impulsiona a transmiti-lo. As mediações vão sendo elaboradas enquanto vivemos e convivemos. (25 de agosto de 2011)
 
MARIA
Porque Deus tinha uma carência para poder penetrar humanamente na nossa história: precisava de uma mãe, e a pediu a nós. Esta é a Mãe a quem olhamos hoje, a filha do nosso povo, a servidora, a pura, a só de Deus; a discreta que dá espaço para que o filho realize sua missão, a que sempre está possibilitando esta realidade, mas não como dona nem inclusive como protagonista, e sim como servidora; a estrela que sabe apagar para que o Sol se manifeste. Assim é a mediação de Maria à qual nos referimos hoje. Mediação de mulher que não nega sua maternidade, mas a assume desde o começo; maternidade com parto duplo, um em Belém e outro no Calvário; maternidade que contém e acompanha os amigos do seu Filho, que é a única referência até o final dos dias. E assim Maria continua entre nós, "situada no próprio centro dessa 'inimizade' do protoevangelho, daquela luta que acompanha a história da humanidade" (cf. Redemptoris Mater, 11). Mãe que possibilita espaços para que a Graça chegue. Essa Graça que revoluciona e transforma nossa existência e nossa identidade: o Espírito Santo que nos torna filhos adotivos, nos liberta de toda escravidão e, em uma possessão real e mística, nos entrega o dom da liberdade e clama, de dentro de nós, a invocação do nosso pertencimento: Pai! (7 de novembro de 2011)

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